Relacionamentos saudáveis dependem de uma boa comunicação, mas nem sempre é fácil expressar sentimentos, lidar com conflitos e entender o que o outro realmente quer dizer. Muitas vezes, nos comunicamos de maneira impulsiva, reagindo a situações com julgamentos e acusações, o que pode gerar ainda mais tensão. Outras vezes, esperamos que uma “conversa definitiva” resolva “tudo” que está ruim na relação.
É aqui que entram em uso nossas habilidades sociais e de comunicação e a proposta de praticar uma comunicação não violenta, pensando um caminho para construir diálogos mais empáticos e relações mais equilibradas.
O Alicerce da Comunicação: entre o treino e a vontade de fazer algo diferente
As habilidades sociais são um conjunto de comportamentos que facilitam a interação com outras pessoas, promovendo compreensão, respeito e cooperação. Alguns exemplos essenciais para os relacionamentos são:
- Escuta ativa: Prestar atenção genuína ao que o outro diz, sem interromper ou formular respostas antes de ele terminar.
- Empatia: Se colocar no lugar do outro para compreender seus sentimentos e perspectivas.
- Autocontrole emocional e ser capaz de desculpar-se: Lidar com frustrações e evitar explosões emocionais que podem prejudicar a comunicação. E quando isso acontecer, desculpa-se e ser consciente das próprias dificuodades
- Expressão clara de sentimentos e necessidades, com assertividade: Dizer o que sentimos e o que precisamos de maneira clara e direta, sem no entanto, ofender ou acusar o outro.
- Comunicação e negociação: Iniciar diálogos, responder a perguntas e fazer comentários, de maneira clara, direta, buscando associar e respeitar seu desejo e do outro
- Trabalho em equipe, com enfrentamento e civilidade: Cooperar com os outros para atingir um objetivo, procurando se expressar de maneira autêntica, mas respeitosa. Sempre refletindo sobre questões além das individuais, construir um posicionamento e argumentar de forma respeitosa
Conviver não é facil, mas também não é uma arte que precisa nascer com talentos para ser capaz de viver junto a um outro e em comunidade. Vivemos tempos solitarios em que somos reforçados a dicotomizar opiniões e sentir que se não nos aceitam como somos, os errados são os outros.
Quando desenvolvemos essas habilidades sociais, conseguimos construir relações mais harmônicas, baseadas no respeito mútuo e no entendimento. Essas habilidades vão na contramão da solidão. Não significa aceitar tudo ou passar por cima de desrespeitos, mas poder suportar o desconforto causado pela comunicação e tomar medidas para promover diálogos.
Conseguimos fazer isso o tempo todo? Não, mas não é sobre perfeição, é sobre processos.
É tomar consciência e fazer negociações entre o que queremos e podemos fazer, nos apropriar atIvamente do que nos aproxima e do que nos afasta um do outro.
E esse caminho, a proposta da Comunicação Não Violenta, ajuda muito na maneira de nos expressarmos que busca promover conexão e compreensão.
Ela se baseia em quatro pilares:
- Descrever a situação, sem interpretar ou acusar.
- Expressar o que sentimos diante da situação, evitando acusações.
- Explicar a necessidade por trás do sentimento.
- Sugerir uma ação específica que possa melhorar a situação.
Esses princípios, mais que regras gerais são elementos que podem ser usados como ferramentas bilaterais da nossa relação com os outros.
O objetivo não é abrir mão da empatia e da escuta, ao contrário, se eu identifico uma situação que me incomoda, sem entender de onde vem esse incômodo, sem entender a resposta do outro inserida em seu contexto, muito provavelmente se eu explicar meu sentimento e demandar uma resposta específica do outro, provavelmente estarei sendo violento.
Aplicar esses princípios significa construir espaço mais seguro para o diálogo. Transformar tudo isso na prática cotidiana é um desafio e pode significar suportar erros e acertos dos dois lados, relativizar e testar outras respostas, insistir no vínculo.
E é na experiência cotidiana de tentar colocar isso em prática que podemos refletir sobre o que identificamos como nossas necessidades, como nomeamos nossos sentimentos e quais repertórios podemos dispor para lidar com tudo isso.
A nossa forma de interagir com o mundo como forma de fortalecer laços
Nossa forma de agir socialmente também pode contribuir para nossa comunicação nos nossos relacionamentos. É importante lembrar que a comunicação não é somente verbal, mas nossos comportamentos e atitudes não verbais, sejam eles conscientes ou inconscientes, gestos expressões interferem no que queremos dizer.
Outra questão que interfere na nossa capacidade de conviver com os outros são os discursos subjacentes e anteriores a nós. Discursos que atravessam nossa forma de identificar nossa forma de enxergar o mundo. E
Experimentar nos observar e definir de onde partimos ajuda a orientar a conversa, escutar e perguntar qual a referência que o outro usa para tomar seus posicionamentos ajuda a localizar a conversa.
São competências como essas que nos permitem interagir com outras pessoas, expressando sentimentos e atitudes de forma que, de um lado, expresse o que queremos dizer e, de outro, reconhece que existe um outro na comunicação.
Identificar que o que é óbvio para nós não é óbvio para o outro, que este não lê pensamentos, tem uma percepção própria da realidade e essa interação é influenciada por códigos sociais e culturais de ambos.
Parece difícil, mas as utilizamos como processo de aprendizagem contínuo podemos melhorar nossos relacio amentos.
Algumas ideias sobre como promover conversas menos violentas e melhorar nossas habilidades sociais no dia a dia
Algo que pode ser interessante de fazer é:
- Observar a si mesmo diante das situações como se você fosse uma outra pessoa observando a situação.
- Conversar consigo mesmo sobre seus sentimentos naquela situação. Talvez tenhamos mais facilidade em fazer isso depois de algo disfuncional acontecer, mas vale também observar quando deu certo sua comunicação. Isso pode ajudar você a valorizar o bom repertório que você já tem e tentar aplicar nas situações mais desafiadoras.
Relacionamentos Saudáveis: Deixando uma porta aberta para a conversa em constante construção
A psicoterapia é um bom lugar para fazer isso, posto que você tem um espaço seguro para trabalhar suas emoções, aprender sobre os momentos em que você “apenas descreve” as situações e em que momentos você as “julga”. É um espaço também onde você pode aprender sobre seus sentimentos e ver onde e quando eles aparecem, qual sua trajetória até o momento presente.
Relacionamentos saudáveis não nascem prontos.
Desenvolver habilidades sociais e comunicacionais, vem da nossa capacidade de nos movimentar socialmente e muitas “travas” ou “maus jeitos” podem vir de falta de treino, experiências frustradas e exemplos pobres em recursos.
Quando podemos ter um ambiente seguro para expressar nossas intensidades, podemos criar também espaço para modular nossas intensidades porque as conhecemos, além disso, podemos também aprender outras formas de agir diante das situações e exercitar isso é importante.
São um processo e não um objeto. Treinar, se expor, testar, tentar trabalhar nossas emoções e a nossa comunicação de maneira clara e respeitosa. Ouvir o outro com empatia, trabalhar a negociação de conflitos e estratégias de enfrentamento pode fortalecer relações e torná-las mais satisfatórias.
Afinal, comunicar-se bem não é apenas falar – é também saber escutar, compreender e construir pontes em vez de muros.
Sobre a autora
Fernanda Vieira é psicóloga clínica, Doutora em Saúde Mental pela Universidade de São Paulo (USP) e fundadora da Be Brave Psicologias. Seu trabalho integra clínica, pesquisa e produção intelectual para compreender como pessoas constroem novas referências diante das mudanças da vida adulta, especialmente em experiências de migração, transformações profissionais e reorganizações da identidade.
Uma observação
Este artigo foi escrito com finalidade informativa e reflexiva. Ele não substitui um processo de psicoterapia nem uma avaliação clínica individual. Cada experiência acontece em um contexto próprio e merece ser compreendida em sua singularidade.
Algumas mudanças pedem decisões rápidas. Outras pedem tempo para serem compreendidas. A psicoterapia pode oferecer um espaço onde novas referências possam ser construídas sem a urgência de encontrar respostas imediatas.
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